Julia Andrade
Todos os anos, no mês de setembro, escutamos histórias sobre a época de Micael. Parece que as coisas teimam sempre em se repetir infinitamente. Sempre comemoramos o Natal envolvidos no calor do verão. Quando voltamos às aulas e os dias se tornam um pouquinho mais frescos, chega a Páscoa. Depois, no frio penetrante do inverno, nos esquentamos no calor das fogueiras de São João e quando as flores voltam a aparecer nas ruas de São Paulo, chegamos à época de São Micael.
Temos a impressão de que tudo se repete da mesma forma acompanhando os ciclos do planeta Terra… Sempre o mesmo ritmo: dia e noite, luz e sombra; para as mulheres, os ciclos mensais de fertilidade e os ciclos da lua e das marés e das estações do ano.
Entretanto, se prestarmos muita atenção, perceberemos que não se trata de tempos lineares e sim de verdadeiros ciclos que nunca se repetem de maneira igual. A cada Natal, a cada época de Micael, nós estamos diferentes do ano anterior. Podemos comparar a vida com a imagem de uma espiral ascendente. Voltamos sempre aos mesmos “pontos cardeais”, mas nunca da mesma forma que no ciclo anterior. É verdade que às vezes estamos melhores – mais tranqüilos, mais felizes -, mas muitas vezes parece que retrocedemos em nossas conquistas materiais e espirituais. Como isso pode acontecer? Isso se dá porque assim como as conquistas, a evolução não é linear. Encontramo-nos em um frágil equilíbrio, em um movimento constante e vivo. Mas a natureza também não se repete! As águas que correm pelos rios nunca são as mesmas, as árvores nunca florescem da mesma forma, nem mesmo o céu estrelado é igual a outro.
Nunca.
Estamos sempre em transformação. O equilíbrio não é estático. E este delicado equilíbrio instável é um dos símbolos que circunscreve o Mito de Micael: a balança.
Faço, então, um convite para uma reflexão sobre o significado do mito, do rito, da religião e da imagem de São Micael em nossa atualidade.
O mito é o relato de um acontecimento ocorrido no chamado tempo primordial. É a narrativa de uma criação: conta-nos de que modo, o que não era, começou a ser.
De outro lado é uma representação coletiva, transmitida através de várias gerações consecutivas. O mito é a “parole”, a palavra revelada, o dito.
Ao se exprimir como linguagem, ele é, antes de tudo, uma palavra que circunscreve e fixa o acontecimento. O mito é sentido e vivido antes de ser compreendido e formulado. O mito é a palavra, a imagem, o gesto que circunscreve o acontecimento no coração do Homem, antes de se fixar como narrativa. Na medida que busca explicar o Mundo e o Homem, isto é, a complexidade do real, o mito não pode ser lógico — ao revés! Ele é por natureza ilógico e irracional. Ele possibilita abrir uma janela para todos os ventos, presta-se a todas as interpretações. Decifrar o mito é, pois, decifrar-se.
Para Roland Barthes — escritor e ensaísta francês — o mito não pode ser um objeto, um conceito, uma idéia.
Ele é um modo de significações, uma forma. Segundo o escritor, “seria uma verdade que se esconde em outra verdade”. Talvez pudéssemos dizer que o mito é uma verdade profunda de nós mesmos. Também Joseph Campbell, outro estudioso dessa temática, interrogado sobre a importância dos mitos, no mundo atual, na busca do sentido da vida, respondeu que os mitos nos oferecem, apenas, a “experiência de estarmos vivos”. Rudolf Steiner também escreveu sobre o assunto e defendeu a idéia de que a separação entre mundo natural e espiritual, como se fossem absolutamente distantes e incomunicáveis, é uma característica atual. Para ele, até o século XVIII as “forças das substâncias da natureza eram vistas de uma forma mais semelhante ao espírito do que hoje. E o espírito era visto mais como imagem da natureza”. Para Steiner esta separação atual causou-nos impressão de que o espírito é algo unicamente abstrato e a natureza é material, alheia ao espírito. Hoje são vistas como meramente fantasmagóricas as concepções imaginativas, ricas e profundas de outrora. Mas, para ele, são nestas importantes concepções imaginativas do inundo, como a luta de Micael e o dragão, que estão os conteúdos anímicos que traçam os primórdios do ser humano. Para Steiner os primórdios da evolução humana estão em realidades espiritualizadas que se expressam através de símbolos.
De acordo com a etimologia símbolo, do grego “symbolori” do verbo “symbálleri” significa “lançar com”, arremessar ao mesmo tempo “com jogar”.
De início, símbolo era um sinal de reconhecimento, um objeto dividido em duas partes, cujo ajuste e confronto permitiam aos portadores de cada uma das partes reconhecerem-se. O símbolo é, então, a expressão de um conceito de equivalência.
Assim, para se atingir o mito, que se expressa por símbolos, é preciso fazer uma equivalência uma “conjugação”, uma “re-união”, porque, se o signo é sempre menor do que o conceito que representa, o símbolo representa mais do que o seu significado imediato.
Em síntese: os mitos são a linguagem imagística dos princípios. Traduzem a origem. Para Goethe: “Os mitos são as relações permanentes da vida”. São verdadeiros religamentos. Aliás, a mesma origem da palavra religião, no Latim “riligione”, do verbo “religar” ação de ligar.
Tomando o vocábulo no sentido mais estrito, pode-se dizer que a religião, para os antigos, é a reatualização e ritualização do mito. O rito possui o poder de suscitar ou, ao menos, de reafirmar o mito. Através do rito, o homem se incorpora ao mito, beneficiando-se de todas as forças e energias que jorram nas origens. A ação ritual realiza no imediato uma transcendência vivida. O rito toma, nesse caso, o sentido de uma ação essencial e primordial através da referência que se estabelece do profano a sagrado.
Em resumo: O rito é a praxis do mito. É o mito em ação. o mito rememora, o rito comemora.
Mas podemos indagar: Qual a importância disso nos dias atuais?
Para Rudolf Steiner, assim como para outros autores, voltar às origens é readquirir as forças que jorram nessas mesmas origens. Alimentemo-nos dos elementos espirituais que nos fazem falta em nosso terrestre cotidiano. Esta é, penso eu, a importância da vivência das épocas do ano simbolizadas nos mitos de Micael, São João etc. Revivemos, mais uma vez, mas de forma distinta, as forças do arcanjo que combate o dragão.
Aproveitemos a época de Micael para repensarmos nossas vidas cotidianas. A cada nova manhã e a cada noite busquemos o despertar lúcido e livre no re-conhecer do nosso mundo e o re-conhecer da outra pessoa que está ao nosso lado. Na verdade, estaremos conhecendo algo absolutamente novo, porque, como já falamos, nunca nada é igual a que foi outrora.
(Julia Andrade, professora de geografia do colegial e tutora do 2º ano)
(extraído da Revista Vitral Ano I nº 02 – Escola Waldorf de São Paulo)
