Mistério do Natal Verde (Rodrigues Matias)

Rodrigues Matias
(trecho das palavras de apresentação do livro “Lírica de Natal, colaboração de Ruth Salles)

 

Para eles, o Natal era verde.
Eles tinham vindo do Belém do Tejo, com grandes pedras aparelhadas lastrando as naus, para erguerem a catedral de Belém do Pará. Com mais pedras que foram chegando em outras naus, ergueram também palácios e pavimentaram as ruas.

As igrejas de Salvador, foram eles quem as ergueu, quem as enriqueceu de tesouros de talha, quem as encimou de torres airosas com carrilhões de sinos cantando as glórias de Deus por sobre a terra nova de Santa Cruz. Enquanto alguns se demoravam enrocando nas falésias de sobre o mar os fortes da defesa, outros esculpiam Ouro Preto, na rocha do coração de Minas.

Depois, foi a subido do rio-mar, a epopéia da penetração do inferno verde. Homens e pedras, rumo aos mistérios silenciosos da floresta virgem. Rios colossais, enfiando, para todos os lados, rumo a destinos ignorados. Açudes e cataratas transpostas, não se sabe ainda hoje como. Mas eles passaram, com sua fé e suas pedras, erguendo uma cadeia de fortes até a fronteira do Paraguai. Eles, os construtores n Brasil.

Em meninos, fora branco o seu Natal, pelas aldeias do Minho e das Beiras. Branco de neve com a Senhora e o Menino tremendo de frio, entre a vaca de barro e a burrinha de rabo de estopa, enquanto os Reis Magos se detinham à entrada do presépio, sob a lucilação prateada duma grande estrela de purpurina.

Agora, para eles, o Natal era verde, nas cabeceiras do Amazonas. Verde a catedral da floresta virgem, onde mãos cristãs não tinham ainda implantado nem capelinha de cobertura de colmo com cruz de madeira no topo.

Partir é vocação e destino. Nunca se sabe muito bem porque se parte. Eles não sabiam. Obedeciam ao íntimo estuar de uma ansiedade mais torturante do que a sede, que lhes conduzia os passos para a ribeira das naus, rumo às goelas insaciáveis do mar e ao inferno da selva, trocando seu pequeno mundo de segurança e de paz pela miragem dum mundo novo de fronteiras sem fim.

Partiram por vocação, e ficaram por destino. Quase nada levaram consigo, além das pedras para as igrejas e para as fortalezas, das figurinhas para o presépio cristão, das suas mãos afeitas a trabalho duro e de um coração ardendo em fé. Assim ficaram por longe, enxertando-se em sangues de outras raças, com filhos e netos erguendo mais igrejas e fortalezas, aglomerando povoações, fundindo granadas, moedas e sinos, organizando sociedades, cultivando a terra e entretendo-se a modelar vaquinha de barro e a recortar estrelas de purpurina para o presépio de seu verde Natal de cada ano.

 

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