Lothar Reubke
(Tradução: Lélia Jenaro e Rosemarie Schalldach)
O nome do Arcanjo
Micael pertence aos poucos seres espirituais a quem, na cultura hebraica e na cultura cristã, foi dado um nome. “Micael” é uma pergunta que diz: “Quem é como Deus?” O nome de Deus era indizível e seus mensageiros eram mais conhecidos através de suas atividades do que por nomes.
Pode-se observar como na consciência de tempos remotos duas diferentes correntes corriam juntas. Em uma vivencia-se uma ordem hierárquica, onde seres espirituais de diferentes hierarquias trabalham com harmonia. Seus nomes são nomes de grupos. Eles ascendem de uma forma quase especial. Segundo o tratado das hierarquias de Dionísio, o Areopagita, temos: Anjos, Arcanjos, Arqueos, Exusiai, Dinamis, Kiriotetes, Tronos, Querubins e Serafins.
A outra corrente abrange nomes de personalidades espirituais que estão mais relacionados a tempos de regência sucessivos. Pertencem todos á hierarquia dos Arcanjos e seus nomes têm origem hebraica. Três deles são mencionados na Bíblia: Gabriel, Rafael e Micael.
Não deixemos de mencionar que uma grande quantidade de nomes de Arcanjos são conhecidos pelos livros apócrifos do Antigo Testamento. Entre todos estes, sem dúvida, Micael tem um lugar especial. Seu nome-pergunta aponta para grandes evoluções futuras, que estão direcionadas a “respostas”.
O Dragão
Neste século existem mudanças, em escala antes nunca vistas, no relacionamento da humanidade com a Terra, com a natureza, com o espírito, com o trabalho e com todos os âmbitos do convívio. Quase nem existem cantos da Terra habitada que não tenham sido afetados por estas mudanças. O materialismo e a técnica já se prepararam desde séculos, porém agora estão em um estágio de uma nova dimensão de liberdade e responsabilidade. Já nos tempos dos apóstolos a nossa época foi indicada com a imagem de São Micael com o Dragão. O Dragão ameaça o futuro do homem. Ele utiliza toda sua força para que não “se vejam as idéias com os olhos” – para usar uma expressão de Goethe – e a moralidade não se desassocie de laços sanguíneos e de ligações com a natureza. Ele não quer que o homem se apóie no espiritual, que está dentro de si, que quer se revelar a partir de si mesmo. Este é o “dragão do materialismo”, aquela visão do mundo que só pode aceitar como realidade o que está relacionado com “matéria”.
O dragão encontra-se jogado na Terra por Micael (Apocalipse 12). Aqui ele atua em diversas frentes. Uma frente encontra-se onde impede a vivência do espírito em nosso ser humano. O dragão amarra as nossas forças de conhecimento com tal intensidade que nos tornamos cada vez mais intelectuais e não vivenciamos com quais forças compreendemos o mundo. Aumentamos a velocidade dos pensamentos e encobrimos com isto a visão dos seres espirituais.
Uma outra frente encontra-se lá onde o dragão luta contra o nosso impulso de que o espiritual do nosso ser se torne a base para as nossas ações. No campo da responsabilidade ético-moral o desenvolvimento da técnica é o seu melhor aliado. Os aparelhos técnicos nos eximem da maior parte de nossas atividades e nos transformam em observadores e espectadores. As consequências na alma dessa inanição “devida ao progresso” são imensas. Somente em casos excepcionais nos tornamos conscientes de que não fazemos nada. Os sintomas da perda de força ético-moral são conhecidos: por exemplo, falta de vontade, desconcentração, fraqueza de motivação, falta de julgamento, etc. As consequências são lastimadas, a escrita do dragão não é conhecida.
Para ilustrar, um episódio do âmbito da queda do sistema socialista: André Sakarov, o “pai da bomba H”, no decorrer de seu trabalho como físico, sentiu a necessidade de alertar o público sobre as consequências nefastas, para o homem e seu ambiente, das explosões termonucleares. Assim tornou-se um opositor do regime soviético e em pouco tempo um dos mais notáveis defensores dos direitos humanos. Ele teve de passar por incontáveis sofrimentos e privações pelos dirigentes do sistema e, ao lento cair de sistema comunista, foi liberado do exílio e reabilitado por Gorbatchev. Em suas memórias Sakarov conta tudo isso de maneira impressionante. Ele descreve como finalmente voltou a Moscou e enfrenta aqueles, que não eram os causadores imediatos, porém, os herdeiros dos dirigentes que levaram a sua vida e a de sua esposa á beira do abismo.
Em 15 de janeiro de 1989 teve uma reunião no Kremlin, onde Gorbatchev, ao cumprimentar as visitas não teve como não dirigir-se também a Sakarov. “Eu disse-lhe”, escreve Sakarov, “que estava grato por sua interferência, quanto ao meu destino e o da minha esposa. ‘Com a liberdade recebi ao mesmo tempo um maior sentimento de responsabilidade. Liberdade e responsabilidade são inseparáveis. ’ Ao que Gorbatchov respondeu: ‘Estou muito feliz, porque o senhor relacionou estes dois conceitos.’”
Poder-se-ia achar que este curto diálogo fosse somente uma fórmula espirituosa, cujo único objetivo seria evitar uma confrontação mais séria. Mas, perante o cenário de tudo pelo que estes dois passaram, pode-se sentir também um transparecer do gesto de Micael. Liberdade desvinculada de responsabilidade pode facilmente ser vivenciada como levando a um gozar desenfreado daquelas necessidades que levam o indivíduo finalmente ao isolamento e o mundo á destruição. Por outro lado, lado responsabilidade, quando não baseada no mundo das idéias do homem (isto é, na realidade), leva a igualdade totalitária e todas as formas de teorias sociais abstratas, sob as quais o século XX tanto teve de sofrer. Como princípios separados eles perdem a sua força positiva. Sob este ponto de vista a concordância séria e feliz do dirigente do partido parece como um relampejar da indicação do Arcanjo, que cuida com desvelo para que a luz celeste da liberdade que se incendeia nos seres humanos, ligada a força da responsabilidade ético-moral, não se apague no âmbito da luz terrena.
(extraído da Revista Nós época de Micael 2007 – EWRS)
